Debates sobre hot topics do setor financeiro

Fruto da 5ª edição do IBGC Dialoga 2023, artigo traz insights para os conselhos de administração

  • 31/07/2023
  • Fabio Coimbra, IBGC Dialoga
  • Artigo

No grupo temático do Setor Financeiro, durante a 5ª edição do IBGC Dialoga 2023, profissionais sêniores com ampla atuação no setor financeiro reuniram-se para trocar experiências e debater temas chave que estão moldando o futuro do setor financeiro. A partir das discussões entre os participantes, foram definidos os quatro temas tratados em cada um dos encontros: (I) Inovações e futuro do setor financeiro; (II) transformação digital e cyber; (III) ESG e (IV) Falhas bancárias sob a ótica da governança. Os encontros foram realizados sob as regras da Chatham House.

No primeiro encontro, buscando identificar temas estratégicos relevantes para a governança de entidades financeiras no Brasil, os participantes e o instrutor definiram os temas a serem debatidos nos encontros. Na sequência, os participantes receberam o convidado Fábio Carneiro, sócio da KPMG para temas de inovação, riscos e regulação para o setor financeiro. Carneiro discorreu sobre as inovações no sistema financeiro, fintechs, ativos digitais e tokenização da economia. Debateu-se também sobre a atuação dos bancos centrais neste contexto, do ponto de vista tanto da regulação como da supervisão.

Carneiro sugeriu uma abordagem para que conselheiros, membros de comitês e diretores possam compreender e se antecipar a mudanças regulatórias, ressaltando que os fatos que acontecem hoje são consequências de decisões regulatórias do passado. Neste sentido, cabe analisar a experiência brasileira, que possui paralelo com a experiência internacional: o regulador busca sempre se adaptar às novas realidades e, muitas vezes, não basta apenas “acolher” as inovações, mas sim induzir as inovações e as mudanças. No caso brasileiro, é possível identificar diretrizes que norteiam a atuação do regulador: (i) preocupação com o risco sistêmico; (ii) aumento da competição e diminuição dos juros; (iii) promoção da inclusão, com maior acesso da população aos serviços financeiros; (iv) melhoria da qualidade dos serviços financeiros; e (v) alinhamento com as tendências internacionais.

No segundo encontro, no âmbito do tema transformação digital e cyber, os participantes discutiram como um conselho de administração pode adquirir inteligência digital, de modo a fazer frente às inúmeras mudanças em curso no setor financeiro. Dentre os pontos levantados, estão o de desenvolver a diversidade do conselho de administração, incluindo conselheiros com olhar para tecnologia; e capacitação e letramento de conselheiros e diretores, para mudar o mindset tradicional. Dentre os fatores-chave de sucesso para uma instituição conquistar a resiliência cibernética: transformação digital como parte da estratégia de negócios e alinhada ao plano diretor de segurança da informação; balanceamento dos aspectos risco-segurança-tecnologia-negócios; criar uma cultura interna digital; investimento em infraestrutura e capacitação das pessoas em todas as áreas.

Na sequência, os participantes receberam o convidado Isac Costa, sócio do Warde Advogados, especialista nos temas relacionados à economia digital e criptoeconomia. Costa discorreu sobre como a aplicação de novas tecnologias em produtos e serviços financeiros tem mudado nossa relação com o dinheiro, como investimos e como consumimos. Debateu-se também sobre os riscos existentes neste “novo mundo”, a partir da utilização de ativos digitais, riscos estes não diferentes dos já existentes no chamado “velho mundo”: lavagem de dinheiro (criptolavagem), cyber segurança, reputação, riscos operacionais e riscos de tecnologia em geral, além da ausência de regulação. Costa recomendou que conselheiros, membros de comitês e diretores cada vez mais incluam a tecnologia da informação e novas tecnologias como variáveis do planejamento estratégico, exemplificando itens a serem considerados: (i) sistemas de suporte à mensuração de resultados e desempenho; (ii) tomada de decisão baseada em dados; (iii) investimentos recorrentes em inovação/renovação contínua; (iv) tecnologia como elemento constitutivo da experiência de clientes; (v) canais digitais de distribuição de produtos e serviços; e (vi) compreensão dos riscos, oportunidades e da regulação.

O tema do terceiro encontro foi ESG. Os participantes concordaram sobre a necessidade dos conselheiros de administração se educarem sobre diversidade e inclusão, de modo a mudar o mindset e romper vieses, especialmente diante dos baixos índices de diversidade e inclusão observados no setor financeiro. Os participantes identificaram um conjunto de ações a serem tomadas pelo conselho de administração de modo a liderar a pauta de diversidade e inclusão, por exemplo: a pauta deve ser inserida no planejamento estratégico; tone at the top; adaptação das regras de composição do conselho; elaboração de políticas; estabelecimento de orçamento específico; emprego de metas relacionadas a participação de diversos grupos; e utilização de mapas de risco.

Na sequência, os participantes receberam o convidado Bruno Youssif, sócio-diretor de ESG Financial Risk Management da KPMG, que compartilhou sua experiência em diversos projetos relacionados a ESG em instituições financeiras e companhias de capital aberto. Youssif começou afirmando que os aspectos ESG devem ser considerados sob a ótica de proteger e gerar valor, de modo a gerenciar os riscos e aproveitar as oportunidades. Neste sentido, discorreu sobre quatro principais fatores indutores dos aspectos ESG: (i) físico (finitude de recursos; (ii) social (stakeholders); (iii) regulatório e (iv) acesso a capital. Foram debatidos os aspectos de autorregulação como o SARB 14 e os Princípios do Equador; e os aspectos regulatórios, como  a atuação do Banco Central do Brasil por meio da norma pioneira sobre a política de responsabilidade socioambiental em 2014, e sua evolução com a publicação de uma família de normas em 2021, com destaque para a inclusão dos riscos sociais, ambientais e climáticos no gerenciamento integrado de riscos, para os aspectos de divulgação e para o alinhamento com as diretrizes do TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures). Tratou-se também da atuação da CVM – abordagem comply or explain e da SUSEP. Por fim, Youssif explorou algumas tendências ESG no setor financeiro brasileiro: (i) desenvolvimento de uma taxonomia verde, sendo necessária adaptação do padrão europeu, em vez de replicá-lo; (ii) adoção crescente dos padrões do TNFD (Taskforce on Nature-related Financial Disclosures); (iii) maior adoção dos padrões de reporte do ISSB (The International Sustainability Standards Board); e (iv) mensuração de emissão financiadas.

No último encontro, os participantes receberam o convidado Carlos Donizeti Macedo Maia, consultor com mais de 40 anos de experiência no setor financeiro e com grande vivência em crises e colapsos bancários. Os debates focaram nos aspectos comuns e nas diferenças entre as diversas crises e grandes falhas bancárias, sob a ótica da governança corporativa. Donizeti discorreu sobre crises como as do Banco Econômico, crise subprime, Bancos Panamericano e Cruzeiro do Sul, bem como sobre casos mais recentes como Credit Suisse e Silicon Valley Bank, traçando o paralelo da atuação dos órgãos reguladores/supervisores e a evolução dos mecanismos de regulação/supervisão a partir de cada crise. Ele destacou, independentemente das condições e fatores macroeconômicos, que todos os grandes casos de falhas envolvem fragilidades em três pilares: (i) modelo de negócio/estratégia; (ii) governança corporativa; e (iii) sistema de remuneração. Como lições aprendidas diante dos casos discutidos, os participantes destacaram a relevância de fortalecer os mecanismos de governança, como por exemplo (i) independência, qualificação e composição do conselho de administração e seus comitês; (ii) governança dos processos de gestão de risco; e (iii) sistema de remuneração que promova alinhamento de interesses e balanceamento das visões de curto e longo prazo. 

Este artigo foi produzido a partir da 5ª edição do IBGC Dialoga que ocorreu no período de março a junho de 2023. A iniciativa se baseia na formação de grupos, a fim de criar espaços de debate entre pares , trazendo temas da governança corporativa em setores específicos. Na temporada, os grupos foram organizados nos setores: Governança Climática, Governança das Famílias Empresárias no Agronegócio, Setor Energia, Setor Financeiro, Inovação e Tecnologia, Sociedade 5.0 e o futuro do trabalho e Startups.

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Sobre o autor: Fabio Coimbra atua na área de Fiscalização do Banco Central do Brasil (BCB) desde 2002 com os temas governança corporativa, gestão de riscos e compliance em entidades reguladas.

As opiniões emitidas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não necessariamente representam o posicionamento institucional das entidades nas quais o autor atua.

Este artigo é de responsabilidade dos autores e não reflete, necessariamente, a opinião do IBGC.

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