Processo decisório através de casos

Eduardo Carvalho considera exemplar o modelo utilizado pela Universidade de Harvard, que prioriza a identidade das organizações

  • 24/01/2023
  • Eduardo Carvalho
  • Artigo

A dinâmica organizacional ocorre através de processos decisórios que devem ser  orientados por fundamentos que representam a identidade da organização: valores, código de ética,  propósito, missão, visão  e contrato social. A reputação da organização é construída em coerência com a sua identidade. Assim, busca-se a prática contínua de deliberações éticas (consciência e coerência entre o pensamento, discurso e ação). É um exercício permanente dos princípios de compliance.

Há muitas abordagens sobre esse processo. Entre muitas, considero que a Universidade de Harvard tem modelo exemplar, fundamentado na construção de casos. Coleciona mais de 30 mil, e está celebrando um século dessa abordagem. Eles são discutidos com alunos de várias turmas, gerando aprendizados relevantes sobre as causas do sucesso e do fracasso das organizações, tornando o ensino e aprendizagem motivadores por tratar de situações que de fato ocorreram ou estão ocorrendo. Isso é possível porque a instituição goza de reputação para construir o caso, interagindo com todos os envolvidos no processo.

Uma consultoria deve ter a capacidade de construir o caso que lhe é solicitado holisticamente. Caso contrário, pode estar orientando a governança da organização a tomar decisões que poderão ter consequências danosas ao seu êxito. Desafio que precisa ser superado no Brasil, pois, em geral, são relatados parcialmente, com informações apenas da parte que contrata. Um caso deve abordar, por exemplo, um problema, definido como uma situação em que algo impactante aconteceu, mas não há explicação explícita porquê aconteceu. O processo é narrado retratando fatos, enriquecido com indicadores. Não há conclusões declaradas. Precisa provocar dúvidas para questionamentos dos participantes, construção de hipóteses, causas e efeitos, construídos em conjunto com o consultor.

Não há “dono da verdade”. Todos estão aprendendo. É um exercício de pensamentos crítico, criativo e sistêmico. Requer estudo prévio dos participantes. A abordagem pode ser enriquecida com a apresentação conceitual do tema pelo consultor ou professor. Neste modelo de aprendizagem, os participantes se entusiasmam com o processo, motivando a colaboração construtiva por todos.

Outra opção do modelo é uma pessoa mais envolvida com o caso, a exemplo do fundador de uma organização, relatá-lo para os participantes. Nessa situação, o professor modera o debate e todos, conjuntamente, constroem hipóteses e propõem soluções. O fundador pode já concordar com algumas soluções construídas. Também pode convidar um grupo de alunos a visitar a sua organização para que aprofundem pesquisas para esclarecimentos das questões e hipóteses levantadas. Assim, o caso poderá continuar sendo discutido em outras aulas e também em outras turmas. A organização que se dispôs a participar do processo fica enriquecida com as provocações e propostas apresentadas por mentes criativas e com diferentes visões. É o modelo que representa a boa integração empresa-universidade.

Algumas regras são estabelecidas para a elaboração do caso:

● Todo o processo é fundamentado em evidências-fatos e indicadores.
● Os avaliadores/consultores devem ser imparciais.
● O processo deve compreender análise de causa e efeito; definições de conceitos e metodologias.
● Para análise de decisões é essencial a determinação de critérios. As avaliações expressam um julgamento sobre eficácia de desempenho, atos ou resultados. Requer critérios apropriados. Sem eles, não há padrões para avaliar.

Seis etapas são fundamentais para a elaboração do caso: hipóteses, problema, diagnóstico, processo decisório, plano de ação, avaliação dos resultados, com possível redefinição de decisões tomadas. 

A primeira etapa é definir hipóteses. Elas impulsionam discussões sobre o caso. Se quer provar algo, faça perguntas: Que evidências tenho que apoiam as hipóteses? Formule o problema. Elabore o diagnóstico.  Há questionamentos sobre o diagnóstico? Poderia haver causas não identificadas? Para cada causa, procure evidências. Um diagnóstico diferente poderia ser feito? Como seria? Revise os critérios para a tomada de decisão e as opções de decisão. Quais são os impactos da decisão recomendada para o êxito sustentável da organização? O processo segue, avaliando e reavaliando a decisão para a sua implantação. Casos são elaborados para que boas decisões sejam tomadas. São fundamentais para o sucesso longevo de uma organização. Cumprir todas as etapas é essencial.

Sobre o autor: Eduardo Carvalho, é Harvard University Advanced Leadership Fellow.

Este artigo é de responsabilidade dos autores e não reflete, necessariamente, a opinião do IBGC.

Confira as últimas notícias do Blog do IBGC

03/02/2023

Já conhece a publicação sobre orientação jurídica para conselheiros?

03/02/2023

Destaques da semana de Vocalização e Influência

02/02/2023

IBGC despede-se de Sissi Saraiva, da Comissão de Empresas de Controle Familiar

02/02/2023

Governança nos conselhos das empresas estatais pode melhorar

01/02/2023

Últimos dias da audiência pública do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa

31/01/2023

Governança, oportunidade e títulos