“Matriz de materialidade deve orientar organização como uma bússola”

Para Ilana Minev, da Bemol, escuta ativa de stakeholders é prática de governança fundamental à longevidade das empresas

  • 25/11/2021
  • Gabriele Alves
  • Bate-papo

O compromisso das empresas com as questões ambientais, sociais e de governança se tornou mandatório para diferentes stakeholders. Nas empresas familiares, esta agenda também caminha lado a lado com os diferenciais dessas organizações que incluem, por exemplo, o legado por gerações e os valores disseminados pela família empresária.

Para falar sobre esta jornada nessas empresas, o Blog IBGC conversou com Ilana Minev, conselheira de administração da Bemol, empresa familiar presente na Amazônia Ocidental e que se tornou a maior contribuinte de ICMS do estado do Amazonas, no segmento comercial. Ilana falou do impacto da pandemia de Covid-19 na postura das organizações, destacou as bases para o sucesso da empresa familiar e ainda ponderou que não existe como uma empresa ser perene sem ser ESG nos dias atuais. Confira, a seguir, a entrevista na íntegra com a conselheira.

BLOG IBGC: Como você avalia a importância da jornada ESG nas empresas familiares? Qual sua definição sobre ela?
Ilana Minev: No espaço de um ano, a consciência social aumentou e uniu o mundo no tratamento do impacto sanitário e econômico da Covid-19. A forma como as empresas funcionam e se relacionam com seus interlocutores mudou. Isso significa que as expectativas em relação às empresas, por todos os stakeholders com as quais se relacionam, cresceram e se intensificaram. Mais do que apenas uma tendência, há uma pressão da população em geral e dos próprios investidores por negócios mais sustentáveis, que sejam responsáveis com o meio ambiente e que busquem uma sociedade mais justa. Isso estimulou empresas a refletirem sobre seus posicionamentos, sua capacidade de entregar o que realmente importa e de fazer tudo isso de forma econômica, ambiental e socialmente responsável. Visão de longo prazo, senso de propósito e a importância do legado são pontos centrais para definir como as empresas familiares alcançam o sucesso. Faz parte do DNA de cada família e de cada geração a condução dos negócios e o olhar atento a seus stakeholders desde sua fundação. ESG é impacto e um exercício de olhar o mundo de uma maneira mais ampla do que a que vinha sendo praticada de uma forma ainda preliminar por muitas empresas familiares. Frente a este novo cenário, a evolução e o olhar nos quesitos ambiental, social e governança devem se consolidar nas empresas familiares.

Sabemos que as empresas familiares possuem uma série de características que as distinguem de outras empresas (os valores da família empresária, o protocolo familiar, as relações família-empresa, entre muitos outros). Na sua opinião, que características contribuem para implementação da jornada ESG nas empresas familiares?
As empresas familiares são predominantes no desenvolvimento da economia brasileira, seja pela sua importância na geração de empregos, pelo empreendedorismo, pelo impacto na comunidade ou pelo legado para gerações futuras. Na pesquisa global da PwC de 2021, 90% das empresas brasileiras são empresas familiares e juntas empregam 75% dos trabalhadores do nosso país. Portanto, a evolução do ESG na empresa familiar é relevante na agenda de melhores práticas para o planeta. Na implementação de uma jornada ESG, a empresa familiar tem algumas características na "largada'' que considero essenciais e fundamentais: propósito, valores e perspectiva de longo prazo. Esses três itens agregam valor ao negócio e constroem uma relação de confiança profunda entre acionistas, colaboradores, consumidores, comunidade e parceiros de negócios. Outra característica comum nestas empresas, é que a cadeia de comando é mais curta quando se trata de tomar decisões importantes, incluindo a alocação de recursos e inovação.  Ao inserir na agenda corporativa e priorizar questões ambientais, sociais e de governança, as famílias empresárias podem aumentar e acelerar seu impacto e responsabilidade social nas comunidades que estão inseridas.

E quais são aquelas características que tornam o desafio um pouco maior?
Dentre os principais desafios, está a implantação da governança, que é a base para o sucesso de uma família empresária. A partir da governança é possível antever temas críticos, por meio da formalização de regras de conduta, acordos societários, transparência nos negócios e passagem de bastão. Este processo envolve organizar toda a estrutura da empresa familiar e estabelecer as diretrizes das metas e ações, tanto da companhia quanto dos acionistas. Diversificar a composição do conselho, por exemplo, trazendo mais membros externos, tem sido uma prática adotada com mais frequência em diversidade. Considero a implementação da governança o primeiro passo para poder avançar nas demais dimensões. Temos uma longa estrada pela frente. 

O IBGC representa o Chapter Zero Brazil, capítulo da Climate Governance Initiative e publicou recentemente um posicionamento (veja aqui) que convoca conselheiros a posicionarem a crise climática no centro da estratégia do negócio.  Que experiências e aprendizados nas questões climáticas você destacaria a partir do caso da Bemol?
Dentro da matriz de materialidade da Bemol, elencamos alguns temas como prioritários. São eles: resíduos, energia solar, eficiência energética e emissões de gases de efeito estufa. No ano de 2021, a Bemol estreou na área de energia solar com três plantas próximas a Manaus, atendendo mais de 1000 unidades consumidoras na capital do Amazonas, dando a oportunidade aos nossos clientes e colaboradores de não só economizar nas contas de energia, mas de também receberem créditos de energia limpa e sustentável. O projeto promete uma economia anual superior a 10%, além de deixar de emitir mais de 670 toneladas de gás carbônico na atmosfera e preservar 27 mil árvores. No mix de produtos que comercializamos, limitamos a venda de produtos de baixa performance elétrica para reduzir o consumo de energia. Na Bemol pensamos no impacto e nos resultados financeiros de maneira conectada. Nas lojas que vendem eletrodomésticos, por exemplo, a opção é pela oferta apenas de aparelhos com maior eficiência energética. Isso diminui um pouco a margem de lucro da empresa de varejo, mas garante menos impacto ao meio ambiente e mais economia para os nossos clientes. Fizemos também nosso primeiro inventário de carbono e agora estamos estudando como realizar a compensação das emissões de gases de efeito estufa através de um projeto de reflorestamento e de redução das emissões geradas na frota de caminhões. Nesta linha, também implementamos um programa de coleta de resíduos e reciclagem para clientes e colaboradores.

Durante sua participação no Congresso Anual do IBGC, neste ano, você comentou que, muitas vezes, as empresas familiares não têm dimensão da sua contribuição socioeconômica. Poderia falar mais disso? Que fatores poderiam contribuir para reverter isso no nosso país?
No passado, a fórmula para o sucesso de uma empresa familiar era focar em qualidade, crescer dentro de seu setor, reinvestir e capitalizar o negócio, além de fidelizar clientes, colaboradores e fornecedores e manter a harmonia familiar. Atualmente, este modelo não é mais suficiente. Conheço várias famílias empresárias que praticam ESG na sua essência sem se dar conta. A prática ESG não é composta por uma série de projetos especiais, mas sim é um reflexo de quem somos e como escolhemos fazer negócios. Afinal, o DNA de toda empresa familiar é ligado a valores, mas para que faça sentido dentro da estratégia do negócio é preciso que os pilares da família estejam alinhados. A Bemol, por exemplo, que atua diretamente na região amazônica, nas cidades de Manaus, Porto Velho, Boa Vista e Rio Branco, é a maior contribuinte de ICMS do setor comercial no Estado do Amazonas. Também investe em projetos de energia solar, conectividade wi-fi, disponibiliza crédito e tem um banco digital. O crédito para nossos clientes, que em grande parcela são desbancarizados, por exemplo, vem sendo oferecido desde o início da empresa. Quantas famílias puderam adquirir seus eletrodomésticos com esse crédito e melhorar sua qualidade de vida? Certamente dar crédito faz parte do S na estratégia da Bemol. Para que outras empresas possam aderir a este movimento, a troca entre famílias empresárias é muito importante. Participar de fóruns de discussões com outras famílias como ocorre na Family Business Network (FBN) e fazer benchmarking enriquecem esta experiência.

Quais outros desafios e oportunidades você identifica para as empresas familiares na agenda ESG?
Dentre os principais desafios, considero a incorporação dos fatores ESG na estratégia para o desenvolvimento de uma comunicação mais efetiva sobre metas e conquistas. Trata-se de medir o impacto e criar metas não somente financeiras, mas também monitorar os avanços menos tangíveis para melhorar a tomada de decisões. A conectividade na região Amazônica faz parte da estratégia ESG da Bemol, onde pensamos em causar impacto, fidelizar os clientes e, depois, em aumentar a rentabilidade. Levamos internet para regiões onde a oferta de internet é muito precária, por exemplo. Com isso, queremos causar um impacto social positivo nessas pequenas cidades, mas, claro, também queremos que eles possam acessar o e-commerce da Bemol e virar nossos clientes. ESG é uma jornada, é impacto e um exercício de propósito. Não há como ser consistente perante o mercado se o ESG não estiver incorporado na empresa, na cultura e nas práticas internas. É o famoso “walk the talk”. As práticas ESG orientam as organizações a construir confiança, aumentar a consciência e encorajar a mudança social. E os efeitos dessa agenda são múltiplos, pois impactam a força de trabalho, geram crescimento econômico, fomentam a inovação, melhoram a imagem da marca e impactam positivamente a sociedade. Trata-se de um ciclo virtuoso. Já uma oportunidade para as empresas é a certificação do Sistema B, organização que representa e busca promover impacto social e global através de métricas verificáveis e comparáveis de impacto social e ambiental, transparência e prestação de contas. No Brasil, são mais de 200 empresas certificadas, e a Bemol está em busca de conquistar a certificação e pretende concluir o processo até 2023.

Qual sua mensagem para empresas que não iniciaram esta jornada ou estão na fase inicial?
Não existe a opção de uma empresa ser perene sem ser ESG. O caminho em que acredito é o de começar com uma reflexão interna e compreender aqueles compromissos que fazem sentido serem estabelecidos. Ou seja, saber para onde se quer ir, mas reconhecendo primeiro onde a empresa está. Por isso, entender o propósito da empresa e alinhar sua estratégia é fundamental. Na Bemol, o nosso core é a Amazônia e todos os temas têm ligações que fomentam acesso e oportunidade através dos nossos produtos e serviços. Entendemos que devemos atuar em três frentes: primeiro, ser uma empresa alinhada às melhores práticas de sustentabilidade, segundo, induzir boas práticas ESG na Amazônia Ocidental e, terceiro, contribuir para o desenvolvimento da Amazônia através de nossos produtos e serviços. Outra mensagem é criar sua matriz de materialidade que deve ser construída com a escuta de todos os stakeholders e deve orientar a organização como uma bússola. Cada empresa precisa descobrir o que é importante para ela e em qual aspecto precisa se desenvolver com maior profundidade, mas a governança sempre atuará como arcabouço dessa agenda. Nenhuma empresa nasce com essa agenda estruturada, mas é uma longa e gratificante jornada.

O IBGC oferece às empresas familiares uma trilha específica que abrange aspectos da governança relacionados à empresa, ao patrimônio, à família e à sucessão. Saiba mais clicando aqui