Governança corporativa num mundo em transformação

Olhar as boas práticas por ângulos distintos pode trazer novos instrumentos e ajuda as empresas a tornarem-se inovadoras

  • 04/05/2021
  • Wilson Carnevalli Filho
  • Artigo

O mundo está passando por uma grande transformação. Fala-se em uma nova era, um período equivalente à Revolução Industrial. Difícil avaliar no calor dos acontecimentos, mas o fato é que as empresas, principalmente as tradicionais e estabelecidas, estão diante de grandes desafios.

Este artigo traz um olhar sobre governança corporativa sob três ângulos distintos, que podem trazer novos instrumentos e ajudar as empresas a lidar com este desafio. 

O primeiro é olhar a governança como movimento. A empresa é governada de tal forma que favorece a capacidade para tomar decisões estratégicas que a conduzam de um ponto a outro. E, com isso,  consigam, adaptá-la às demandas do ambiente de negócio, protegendo-a e gerando valor.

Decisões estratégicas não são triviais e nem frequentes, pois exigem muito esforço para serem tomadas. Exigem escolhas entre dilemas; uma percepção alinhada de cenários entre sócios, conselheiros e gestores; estressam relações pessoais, o que implica em superar interesses internos; e exigem renunciar a legados e, no fim do dia, cada vez mais, fazer apostas. 

A qualidade decisória pode ser medida por três atributos: precisão, tempestividade e maturidade institucional do processo. A empresa pode demonstrar estar mobilizada para atuar no ambiente de negócio com agilidade, precisão e no timing correto. Porém, pode ter baixa maturidade institucional, por ter um sistema de controle frágil, processos e práticas personalizados, não seguir determinados princípios ou depender de um líder visionário. Em todos estes casos seu processo é bom, mas não sustentável.

Desta forma, o foco na qualidade decisória não elimina o zelo para com os princípios e práticas tão comumente associados à governança. Pelo contrário, expande seu conceito, permitindo uma visão integrada das instâncias decisórias (propriedade, conselho e gestão). O foco na qualidade decisória leva a se tratar a empresa como um organismo único, que interage com o ambiente de negócios em que atua.

E aí se chega ao segundo olhar. A governança que encontra um ponto de equilíbrio a partir das personalidades envolvidas no processo decisório, da estrutura societária, da prática dos princípios e processos. Essas forças, por sua vez, se amoldam às demandas do ambiente de negócios, criando uma combinação única que funciona para aquela empresa.  

Este fenômeno gera o que se pode denominar uma Configuração de Equilíbrio da Governança. Importante perceber, então, que se um dos componentes muda, todo o modelo precisa se reequilibrar. As mudanças devem ser feitas com visão sistêmica e não pontual. Caso o ambiente de negócio se transforma, ou diante de um processo de sucessão, - ou ainda diante da necessidade de uma mudança societária. Em em todos estes casos, deve-se buscar um novo equilíbrio. Muitos erros são cometidos por falta desta visão sistêmica da governança.

O terceiro e último olhar refere-se à liderança. No universo da governança o líder deve ter alguns atributos adicionais aos encontrados na gestão. Este personagem deve compreender a configuração da governança existente e a forma como a empresa interage com o ambiente de negócios; saber equilibrar o contraditório, importante para explorar possibilidades, sem deixar de lado, o alinhamento, necessário para executar os planos; e finalmente ter uma clara noção de timing a fim de concatenar as ações ao longo do tempo.

As empresas tradicionais estão sendo fortemente desafiadas. O passado mostra que poucas conseguem se reinventar, mas casos recentes mostram também que é possível. Quanto mais líderes capacitados para compreender as complexidades internas e externas, e que saibam configurar a governança para lidar com elas, maiores são as chances destas empresas vencerem os desafios. 

Autor: Wilson Carnevalli Filho, conselheiro independente , sócio-fundador da Ekilibra Governança Integrada e instrutor nos cursos do IBGC

Este artigo é de responsabilidade dos autores e não reflete, necessariamente, a opinião do IBGC.

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