Engajamento das empresas com a sociedade é uma conquista

Transparência é caminho para promover confiança mútua entre corporações e sociedade

  • 11/09/2020
  • Ana Paula Cardoso
  • Eventos

O relacionamento entre empresas e sociedade deve ser visto como um processo de engajamento, a ser iniciado de forma informal e gradativa, promovendo o conhecimento de expectativas e objetivos dos envolvidos. “É como um namoro: se no primeiro dia uma das partes chega com um anel de noivado, a outra parte tende a sair correndo. É preciso se conhecer e se mostrar aos poucos, até conquistar a confiança mútua”, ilustrou Carlos Alberto Roxo, sócio da empresa MaKer Sustentabilidade. 

Roxo foi um dos convidados do IBGC Dialoga, realizado na sexta-feira (4/9), sobre ESG: relacionamento com as comunidades. Engenheiro hidráulico e com especialização em meio-ambiente na Dinamarca, Roxo trouxe o caso da empresa Fibria, indústria de celulose, que saiu de um conflito com as comunidades ao entorno das florestas do Espírito Santo, e se tornou um exemplo de empresa atuante junto às comunidades.

Marcha do conflito à cooperação

O caso relatado por Roxo mostrou o desentendimento entre a Fibria e as comunidades quilombolas, indígenas e membros do MST (Movimento dos Sem Terra), que teve como efeito não somente perdas financeiras, mas de imagem e reputação da empresa. Para resolver o impasse, foram tomadas soluções integradas entre todas as áreas da empresa. Mas, sobretudo, o plano de ação foi liderado pelo conselho de administração e pela diretoria. 

“Em casos assim não existe um único herói que resolve tudo. Foi preciso mudar todo o enfoque de sustentabilidade da empresa, com abordagem sistêmica, mobilização de todos os colaboradores e uma escuta atenta dos chairmen às comunidades. E depois, todos marcharam juntos em cooperação”, contou Roxo.  

Engajar comunidades mais críticas

Um esforço em busca de soluções integradas pode evitar que os conflitos tomem dimensões maiores. De acordo com os conceitos de ESG, a abordagem com a comunidade deve passar antes por uma etapa fundamental:  identificar quais são os grupos mais críticos ao negócio.  

Embora toda a sociedade seja importante, as comunidades mais críticas são aquelas consideradas mais impactadas pelas operações de uma companhia – ou que podem trazer riscos maiores para a empresa. 

“O engajamento com as comunidades críticas é o ponto chave do ESG”, ressalta Roxo. Segundo ele, engajamento deve ser entendido como um processo de relacionamento de maior profundidade, estruturado na forma de uma jornada em que é preciso buscar soluções de curto e longo prazos. “O mundo hoje é sistêmico e todo negócio é afetado. A empresa que não promover a responsabilidade social não sobreviverá”, acrescentou o palestrante.  

“ESG está na moda”

O segundo bloco do debate contou ainda com a participação de Luciana Galvão superintendente socioambiental e de assuntos indígenas da Norte Energia Usina de Belo Monte. Luciana contou um exemplo de engajamento, quando, proibidos de irem até as reservas por conta da pandemia, os funcionários da usina usaram rádios e manuais de línguas indígenas para se comunicarem com os índios de Altamira. 

Em seguida, Olinta Cardoso, gerente-executiva de responsabilidade social da Petrobras, ressaltou que é preciso conhecer as comunidades não do ponto de vista teórico, mas partir a campo para conhecer os agentes da sociedade. “Também precisamos ter em mente que nem sempre as comunidades são organizadas. E esse deve ser também o papel da responsabilidade social da empresa: ajudar na organização das comunidades”, acrescentou Olinta.

Para a coordenadora do Capítulo Rio de Janeiro do IBGC e moderadora do painel, Lúcia Casasanta, o evento cumpriu o objetivo de trazer histórias da vida real para inspirarem as boas práticas. “Hoje, ESG está ‘na moda’ e isso é motivo para comemorar”, comentou Lúcia. Mas antes de ser o assunto da vez, o fator ESG precisa ser entendido como uma forma de sobrevivência e longevidade de uma empresa. 

É o que pensa a diretora global de sustentabilidade na Natura, Denise Hills. Ela não consegue mais imaginar modelos de negócios distanciados do entendimento do que seja o relacionamento com as comunidades. “Seja com aquelas mais críticas ao negócio, ou com aquelas cuja influência é indireta. Acabou o tempo de uma economia voltada apenas para os shareholders. O modelo de capitalismo para os stakeholders já está acontecendo”, concluiu Denise.

Roberto Waak, membro do conselho do IBGC e membro do Visiting Fellow Hoffman Center - Chatham House, fez o fechamento do evento falando da governança corporativa, o “G” da sigla ESG. “É comum as empresas aplicarem as recomendações de governança quando há um desastre ou um decreto. E agora estamos caminhando para sermos movidos para desenhar as soluções, a partir do entendimento do papel da empresa no desenvolvimento das comunidades como um todo”, ressaltou Waak.

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